Gestão interna

A forma como vivemos, bem ou mal, é determinada simplesmente pela forma como somos capazes de gerir o meio em que estamos envolvidos e a forma como nos gerimos a nós próprios.
Fundamentalmente a vida é uma forma de gestão. Se não soubermos como gerir o nosso corpo, a nossa mente, as nossas emoções, as situações que se nos apresentam, a nossa casa, comunidade, país e mundo, é provável que a vida que temos não espelhe as nossas expectativas. De um modo geral a  qualidade das nossas vidas depende do modo como somos capazes de gerir as coisas dentro de nós próprios.
No entanto e paradoxalmente, aplicamos-nos nas questões da gestão somente em áreas bem definidas como por exemplo negócios, finanças e propriedades. A gestão é aplicada maioritariamente em situações ligadas à economia e não

à vida como um todo.

Em muitas medidas é um dado infeliz o fato de que hoje, o fator predominante que governa o planeta se tenha tornado económico. Os outros aspetos da vida forma completamente empurrados para um canto.
Quando a economia impera, e os fatores económicos são aqueles em que pensamos antes de qualquer outro, tornamos-nos brutos e infelizes de variadas formas.
Pessoas que falharam nas suas vidas num plano ou no outro, sofrem o seu fracasso. Pessoas que obtiveram sucesso numa ou outra área da sua vida, sofrem o seu sucesso. Se sofremos porque falhamos, não tem grande mal porque o falhanço acontece facilmente, mas se sofremos no nosso sucesso, isso é mais grave porque o sucesso não vem até nós da mesma forma.
Uma coisa que sempre aspiramos e para a qual trabalhamos, que quisemos construir e trazer para as nossas vidas, se quando conseguimos essa coisa sofremos com isso, então, essa é uma verdadeira tragédia. E no entanto basta uma olhadela em revistas focadas nas vidas de gente com sucesso para encontrar muitas que sofrem os seus sucessos. Quando me refiro ao sofrimento dos seus sucessos, pensem em vocês e analisem o quanto eram felizes quando tinham 5 anos de idade e comparação com a vossa capacidade para gerar alegria hoje depois de adultos. Se pensarem nesses resultados em termos de um gráfico, tentem visualizar a linha do gráfico. Está a mover-se para cima ou para baixo conforme a idade vai aumentando?
Num período de 24 horas quantos momentos são aqueles em que estamos verdadeiramente felizes? Se pensarmos nestes termos, em que direção se move a linha do vosso gráfico? Se está como penso a ir para baixo, isso significa simplesmente que somos maus gestores da nossa vida, afinal de contas tudo aquilo que fizemos, fazemos ou iremos fazer  é em função do propósito de perseguir a felicidade, não é assim? Tudo aquilo que fazemos, fazemo-lo porque acreditamos que vai de encontro à expectativa de produção da nossa felicidade e bem estar. Educamos-nos, perseguimos carreiras, construimos famílias, corremos atrás das nossas ambições. Fazemos essas coisas porque algures acreditamos que uma vez realizadas estas coisas, teremos felicidade. Se depois disso a felicidade não aumenta, e antes pelo contrário diminui, isso significa que somos maus gestores de nós próprios.
Qualquer pessoa que não saiba gerir o seu próprio corpo, a sua mente, as suas emoções e energia, quando consegue gerir situações externas, só o faz por sorte ou acidente, e não porque assim o entende ou porque quis. Porque se não sabemos como gerir a nossa mente e energia, o nosso lado interior, então gerir com sucesso a dimensão externa a nós é um ato acidental. Quando gerimos as coisas por acidente, então de certa forma existimos por acidente, e quando se  existe por acidente tornar-se ansioso é uma consequência natural da vida.
Por todo o lado onde se vai hoje em dia, ouve-se falar em gestão de stress. Gerir o stress não deixa de ser um conceito estranho. Percebe-se que alguém queira gerir um negócio, propriedade, família, mas como é que se cai numa situação onde seja vital gerir o stress? A conclusão é que tristemente chegamos a um ponto em que não acreditamos que seja possível viver sem ele.
Entendam que uma pessoa não sofre de stress por causa daquilo que está a acontecer, mas sim porque na realidade é um mau gestor de si próprio. Não sabe como gerir os seus sistemas internos e é por isso que é stressado. Não é a natureza do que se faz que é stressante, nenhum trabalho é stressante, mas se não tivermos controle nos nossos sistemas, então tudo se torna em catalisador de stress, quer se faça alguma coisa ou não se faça nada.
Fundamentalmente gestão significa que queremos decidir o curso das nossas vidas. Não queremos viver aqui como uma forma de acidente, queremos decidir para onde e como levar as nossas vidas no futuro. Isso é gestão não é assim? Toda a gente é gestora dentro das suas capacidades, em diferentes níveis e de diferentes tipos, desde a gestão de uma cozinha doméstica onde se cozinha para 4 pessoas, até à gestão de uma industria onde trabalham quatro mil pessoas. Mas de um modo geral se queremos ter uma boa cozinha ou uma boa industria isso depende do modo como gerimos as situações. Se queremos gerir situações externas, aquilo que precisamos de gerir são de modo geral, materiais e pessoas à nossa volta.
Se gerimos dez ou mais pessoas isso significa que iremos gerir 10 ou mais mentes diferentes. Se não tivermos a nossa própria mente em condições, gerir as outras irá revelar-se um desastre mais cedo ou mais tarde.
No processo de fazer o que quer que seja, se estamos a destruir seres humanos, então à que refletir se essa coisa vale a pena de ser feita dessa forma, afinal de contas tudo o que se fazemos, já vimos, parte do pressuposto de que serve o propósito de nos aproximar da felicidade que perseguimos.
Se estamos a fazer uma gestão que tenha em conta o bem estar das pessoas, então esse processo não pode apontar só para a produção e o lucro. O ser humano tem que emergir desse processo em todo o seu potencial, não só profissionalmente, mas como pessoas, onde qualidades como amor, tolerância, respeito e empatia existem como expressões de uma boa gestão interna.
Se no processo de produção seja do que for a qualidade de vida não se eleva, então a gestão está a ser mal feita.
Para muitas pessoas, gestão significa apenas distribuição de medo e influência em fatias fazendo uso da autoridade. Um gestor é uma espécie de “bully” que impõe medo e mau ambiente a bem dos resultados.

Certo dia estava o Leão contente consigo próprio, bamboleando-se pela selva orgulhoso do seu papel de rei.
Um coelho passa e ele agarra-o.
-Quem é o rei da Selva? Pergunta.
-És tu, és tu, diz o coelho cheio de medo.
O Leão solta-o contente. Passa uma raposa e o leão agarra-a.
-Quem é o rei da selva?
-Quem mais poderia ser senão tu? Diz a raposa.
O leão continuou orgulhosso até que viu um elefante.
Cheio de si perguntou novamente:
-Quem é o rei da selva?
O elefante agarrou nele com a tromba e mandou-o para o chão.
O  leão cheio de dores vira-se para o elefante e diz:
-Podias simplesmente ter-me dito...

Muitas pessoas acham que gestão significa uma atitude semelhante. Mas isso não é gerir, qualquer tolo pode fazer isso. Fazer gestão implica que o ambiente seja positivo e que as pessoas envolvidas nesse espaço se sintam bem, caso contrário não é gestão. Um gestor necessita de uma dimensão interna. Quando se fala de uma dimensão interna não se trata do corpo e mente, pois esses até determinada extensão são obtidos externamente. Vimos ao mundo com dois ou três quilos, e 50 centímetros e desde assa altura até hoje crescemos consideravelmente. Como é que isso aconteceu?
Crescemos através da transformação de toda a comida que ingerimos. O nosso corpo é uma acumulação de matéria camada após camada. Aquilo a que chamamos de comida é um bocado da terra que engolimos e transformamos no nosso corpo, que por sua vez não é  outro bocado de terra.
Assim o nosso corpo é uma acumulação do que comemos por um período de tempo. Aquilo a que chamamos de mente é um conjunto de impressões que reunimos de experiências passadas. Assim temos uma coleção de matéria e eventos a que chamamos corpo e mente, mas se olharmos para nós e tivermos em conta a definição de vida então é fácil assumir que alguma coisa mais deve existir.
Se somos capazes de reunir um corpo e uma mente, alguma coisa mais fundamental deve estar por trás de tudo isto, e no entanto isso nunca entra no panorama da nossa experiência, estamos demasiado perdidos no jogo do corpo e dos pensamentos tentando fazer algum sentido deles.
Tal como existem ciências de gestão para os acontecimentos externos, também existe uma ciência de gestão para o que nos compõe internamente.
No entanto nunca nos aproximamos dessa gestão de modo cientifico, acreditamos apenas que fazendo as coisas de determinada maneira, de algum modo elas acabam por resultar como esperamos.
No momento presente as pessoas julgam que educando-se de acordo com determinadas expetativas sociais irão reunir o necessário para viver felizes para todo o sempre, fato que irão descobrir no futuro próximo que não é assim. Por encontrarem um emprego acham que irão viver felizes para sempre e brevemente irão descobrir que não é verdade. Porque em determinada altura conseguem reunir dinheiro e ter poder de compra acham que não precisam de mais para ser felizes e no entanto irão descobrir que estão iludidas. Por nos casarmos com a pessoa amada achamos que iremos ser felizes, e no entanto os divórcios provam que isso também não é assim. Tudo isto mostra que nos tentamos constantemente enganar, acreditando que de algum modo, fazendo alguma coisa em particular, iremos nos aproximar do objetivo de sermos felizes.
Mesmo depois de nos frustrarmos repetidamente com este processo, ainda assim acreditamos que uma outra circunstancia a alcançar no futuro irá fazer com que tudo fique bem.  Não vai.

Certo dia um boi e uma ave estavam num descampado a comer. O boi comia a erva do chão e a ave despreocupada comia os parasitas do corpo do boi. Eram como sócios.
Olhando nostalgicamente para a orla do prado a ave disse:
-Já houve uma altura em que eu era capaz de voar até ao ramo mais alto daquela árvore. Mas hoje em dia não tenho força sequer para voar até lá.
-Mas isso não é problema respondeu o boi.
-Come um pouco dos meus dejetos por dia que são ricos e nutritivos e a força irá voltar a ti.
O pássaro não acreditou à primeira mas tal era a vontade de voltar a voar alto, que decidiu fazê-lo. Ao fim de dois ou três dias as forças de fato voltaram e voando até ao ramo mais alto, ai pousou e ficou a deliciar-se com a vista.
Um camponês ao reparar naquele pássaro gordo e pesado no topo da árvore abateu-o com um tiro de espingarda.
Moral da historia: Apesar de qualquer porcaria poder levar-te até ao topo, é improvável que por si só consiga mente-te por lá.

Se estamos à procura de uma vida de satisfação, de alegria e bem estar dentro de nós próprios, não devemos enganar-nos com esquemas temporários que por si só não tem poder para o conseguir.
Devemos fazer sim a coisa certa., caso contrário não irá funcionar. Por favor reparem um dia nas vidas de pessoas bem sucedidas e na vida de pessoas que não alcançaram ainda os seus objetivos. Reparem naquilo que são as  manifestações da sua alegria. Em 24 horas quantas vezes estas pessoas manifestam sinais de alegria? Avancem por uma rua e vejam quantas caras alegres vêm na rua. O que lhes aconteceu? De um modo geral estas pessoas tem uma vida bem melhor do que aquela com que sonharam. As gerações do presente estão rodeadas de luxos e confortos modernos, que proporcionam um bem estar físico como nunca até então, não é verdade? Somos na realidade a geração mais abençoada do ponto de vista externo, pois nenhuma outra conheceu esta quantidade de confortos e conveniências. Mas ainda assim, somo mais felizes do que as gerações do passado foram? Isso deve-se ao fato de não termos ainda aprendido o processo da gestão interna. No processo de criarmos o que queremos, estamos a destruir a própria fonte da nossa vida que é este planeta. Na procura da nossa felicidade estamos a transforma-lo numa gigantesca lixeira e ainda assim não estamos satisfeitos, nem mais contentes do que éramos 500 anos atrás.
Algures no processo negligenciamos o nosso lado interior. O motivo pelo qual as pessoas não fazem um esforço para se voltarem para dentro hoje em dia, é porque hoje qualquer pessoa que pense, que seja capaz de ler e escrever, desenvolve uma alergia relativamente a tudo o que é espiritual.
A culpa não é das pessoas, mas sim de um processo em que as pessoas ditas espirituais envolveram a espiritualidade que nos dias de hoje se constitui como uma anedota e não é por isso levada a sério.
A espiritualidade é apresentada hoje em dia de modos tão terríveis e ridículos, que quem tenta saber mais acerca dela rapidamente se arrepende, ou não tenta sequer se aproximar.
Espiritual quer dizer conhecer-se a si próprio em todas as dimensões em que somos constituídos, e por consequência conhecer aquilo que está para além do plano manifestamente físico.
Porque nos movemos e interagimos com o plano físico da nossa existência, corremos também o risco de sermos influenciados por ele.
Se formos permeáveis a tudo o que está a acontecer fora de nós, então sermos felizes e gozar-mos de bem estar é um acidente de percurso. Não interessa quão bons somos, ou que tipo de profissão desempenhamos, o poder que temos, a gestão externa que fazemos. As circunstancias externas não estão nunca 100% sobre nosso controle. É assim que a natureza da vida.
Somente quando alguém consegue tomar consciência de uma dimensão para além da física dentro de si mesmo é que se torna possível estar no mundo de forma a experimenta-lo em pleno, sem ainda assim disturbar o lado interior mantendo-o tranquilo.
O mundo externo não irá nunca acontecer da forma como queremos a 100%, isto é um facto. Assim o mundo interno que nos compõe, pelo menos esse, deverá estar plenamente sobre nosso controle. Se as nossas emoções e energia não funcionarem de acordo com a forma que entendemos, então essa é a pior forma de escravatura possível, porque será outra pessoa a decidir o que acontece dentro de nós.
Reparem que quando alguém decide por nós o que se passa à nossa volta independentemente da nossa vontade, em determinada extensão chamamos a isso escravatura. Mas se alguém tiver o poder para decidir o que se passa dentro de nós, essa não será uma forma ainda mais horrível de ser um escravo? Essa é a escravatura em que o mundo está mergulhado. A única consolação é que todos funcionam dentro deste processo doentio.
É vital que se acorde desse processo, desse sono que nos prende. Existe todo um processo de gestão interna que podemos aprender. Se não o aprendermos, podemos ser bem sucedidos nos processos de gestão de uma empresa, de uma casa, de um terreno, mas nunca gozaremos de uma vida alegre e bem sucedida no campo mais importante para catalisar a possibilidade do nosso bem estar. Se queremos ter uma vida de sucesso propriamente dita, de onde transpira naturalmente alegria e bem estar e oferece-la às pessoas à nossa volta é extremamente importante sabermos gerir o nosso interior.

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