O bem e o mal dividem o mundo

No momento em que identificamos alguma coisa como boa ou má, estamos simplesmente a dividir o mundo.”

sadhguru jaggi vasudev

Quantas vezes não fomos induzidos pelas circunstancias  a pensar que as coisas boas só acontecem aos outros? Sobretudo se essas pessoas a quem acontecem as coisas boas forem aquilo a que catalogamos como más pessoas.
A conclusão é frequentemente que as pessoas boas tem mais azar na vida e sofrem mais.
Eu que tenho uma certa conduta na minha vida, tento fazer o que está certo e ajudar os outros quando posso, estou mais vezes frente a situações desagradáveis do que outras pessoas que não mereciam ter tanta sorte mas que parece

que nasceram com o traseiro voltado para a lua. Se este tipo de raciocínio faz tocar alguma campainha dentro de si então este texto poderá ser útil enquanto espelho.

Analisemos em primeiro lugar como é que nos tornamos boas pessoas. O meu vizinho  é assim, o sr. Do talho é assado, a mulher do João é cozido, a professora da Joana é cozido... Comparado com todas estas pessoas eu sou um excelente ser humano e uma boa pessoa.
De onde é que tiramos a ideia de que somos bons? Analisem. Fizemos uma comparação bastante parcial com todas as pessoas que conhecemos e catalogamos essas pessoas como más, e agora sentimos-nos boas pessoas. Alguém que pensa que é muito boa, para ela ninguém que conheça ou venha a conhecer é boa, pelo menos durante muito tempo.
Pessoas assim encontram-se muitas vezes sozinhas pois ninguém quer estar ao pé delas, ao pé de pessoas assim, a vida parece não ter lugar para acontecer. A nossa bondade só o é em comparação com alguma outra pessoa, não é assim? Ao estabelecermos as regras e medidas pelas quais analisamos os outros, acabamos sempre por virar o jogo da análise a nosso favor e ficamos sempre muito bem na fotografia quando nos comparamos com os outros. As boas pessoas deste contexto não chegam a lado nenhum neste mundo ou em outro qualquer.

O Sr Joaquim era um homem quase santo. Nunca  tinha cometido uma má ação. Certo dia, após já algum tempo no seu leito da morte quando finalmente morreu. Sendo num homem bom, foi naturalmente para o céu. No céu foi recebido com muito entusiasmo até que um dos santos que organizam as chegadas o confrontou com uma questão.
Sabe? Disse ele. Temos um pequeno problema. Aqui organizamos as pessoas segundo o nº de más ações que cometeram. Uma pessoa que tenha cometido uma única má ação fica no primeiro patamar nas acomodações que temos, Se essa pessoa cometeu duas más ações vai para o segundo patamar, com três más ações vai para o terceiro e por ai fora...
E qual é o problema? Respondeu o Sr. Joaquim.
Bom... aparentemente o Sr não cometeu nenhuma má ação e como tal não sabemos o que fazer consigo...

As pessoas boas não trem lugar nem aqui nem lá, porque não é a nossa bondade que nos liberta. A nossa bondade é estabelecida por comparação com alguém. Se estabelecemos as nossas qualidade por comparação com mais alguém, então não se trata de bondade, trata-se de um tipo de doença.
Neste momento funcionamos mais ou menos em função do mínimo denominador comum. Mesmo quando estamos contentes, não conhecemos a alegria, porque o nosso contentamento é destilado daquilo que temos e os outros não. Digamos por exemplo que estamos num local onde as pessoas ainda não tiveram por alguma razão oportunidade de almoçar às 16:00, Essas pessoas estão naturalmente com fome, mas nós não porque já comemos e temos o estômago cheio. Sentimos-nos bem em comparação. Estamos felizes porque ninguém comeu mas nós pelo menos já tivemos oportunidade de o fazer. Isto é felicidade ou doença?
A humanidade sofre de uma doença que passa por felicidade para a maioria das pessoas.
O nosso sentido de felicidade vem de uma comparação com aquilo que os outros não tem. A maioria de nós perderia o interesse por muitas das coisas que temos e que consideramos valiosas se todos os outros tivessem a mesma coisa em sua posse. Se todas as pessoas tivessem um Ferrari igual ao meu, será que este ainda faria parte da minha lista de coisas valiosas a ter ou manter? O ferrai torna-se algo tão precioso e fonte de orgulho porque os outros não o tem, não é assim? Isto é uma forma de doença. Esta doença passa por felicidade mas não é capaz de perdurar e como tal de nos libertar das amarras da fonte do sofrimento.
Se formos alegre pela nossa natureza estaremos bem com as circunstancias e com a vida á nossa volta. A inclinação para fazermos coisas negativas não estará presente se estivermos vivos e alegres dentro de nós. Já notaram como sempre que estamos alegres, nos sentimos generosos e de bem com a vida?  Nessas circunstancias independentemente do que os outros fazem conseguimos olhar para além das ações e viver com essas coisas. E quando estamos descontentes? Nessas alturas temos problemas com qualquer pessoas no mundo, ainda que seja com aqueles que afirmamos amar.
Não é a nossa bondade que nos poderá libertar ou trazer pureza.
As pessoas boas conhecem bem o sofrimento e as coisas más e estão a negociar permanentemente evita-las. Se estamos a evita-las é provável que estejamos sempre a pensar nelas e por consequência não estamos livres delas, estamos simplesmente a evita-las. Evitar uma coisa não é o mesmo que estar livre dela.
Se por outro lado começarmos a olhar para os outros como nossa responsabilidade , será que estaremos mais próximos de ser puros no que toca à pureza (bondade) das nossas ações? Sim ou não? Se começarmos a experimentar a qualidade de vida à nossa volta como sendo 100% da nossa responsabilidade, seriamos pessoas mais puras? A pureza vem do conceito de inclusão e a bondade no contexto apresentado vem do conceito de exclusão. Tornamos-nos bons porque estamos a excluir os outros das nossas referências de bondade e subtraindo os outros tornamos-nos a referência pela qual pautamos os outros, mas somente quando incluímos toda a gente nos tornamos puros, no sentido em que a fonte da nossa bondade é pura, é inclusiva e não resultado de um julgamento.
A bondade que exclui por comparação não vai funcionar. É fonte de sofrimento para nós e para os outros. As pessoas boas estão sempre a sofrer. Perguntam-se porque é que sendo tão boas pessoas a vida não lhes corre bem, ou os negócios não vão como deviam. O nosso vizinho é um fulano terrível mas tudo de bom lhe acontece. Porque é que deus não nos ajuda? Somos boas pessoas mas somos parvos. O que fazer?
Se não fizermos as coisas certas elas não vão funcionar, não é assim? Se uma pessoas boa plantar uma semente e a deixar à sua sorte sem rega-la e sem tirar as ervas daninhas a semente vai crescer? Até pode acontecer mas será provável? Em comparação se uma pessoa muito má plantar uma semente e todos os dias a regar, cuidar do solo, proteger e nutrir essa semente, ela irá crescer? È bem provável que sim. Não se trata então de sermos bons ou maus. A vida não conhece esses conceitos, eles pertencem exclusivamente à nossa mente. Se queremos que algum aspeto da nossa vida funcione, teremos que descobrir como fazê-la funcionar, caso contrário isso não irá acontecer.
Se estamos à espera que Deus desça do céu e nos ajude, estamos a plantar as causas de frustração futura. Deus não irá levantar um dedo por nós.
Aquele a quem nos referimos como Deus é um criador, e convenhamos que fez um excelente trabalho na sua criação, não concordam? Não é a criação algo de maravilhoso? Conseguem pensar numa criação melhor do que esta? Enquanto criador o seu trabalho é absoluto. Mas deus não é um gestor, é quando muito um mau gestor. É um grande criador mas a gestão da nossa vida é o nosso trabalho. Se a gerir-mos bem, ela corre bem, se a gerir-mos mal ela irá correr mal.
A centelha da divindade está presente em todos os seres vivos. Então porque é que algumas pessoas são boas e outras más? Se Deus está presente em todos nós devíamos ser todos bons, certo? Mas quem nos disse que deus é uma pessoa boa? Então será que ele é mau? Também não creio que seja mau. A realidade é que bom e mau é uma invenção nossa e como tal um problema nosso. O bom e mau são criados pela nossa mente analítica, porque ele categorizou e etiquetou tudo como bom e mau. Este bem e mal, certo e errado são tudo criações nossas, são disparates inventados.
O que era pensado ser muito bom à cem anos atrás é insuportável hoje em dia. Aquilo que achamos ser muito bom, os nosso filhos odeiam. A sardinha já foi boa para a saúde e já foi má. Houve uma altura em que um crime passional era perfeitamente justificado em caso de traição e hoje é considerado homicídio em1º grau. Então o que é que é bom ou mau? Como definir conceitos que são parte de um processo de avaliação dinâmico? São conceitos, disparates da nossa criação que não tem nada a ver com a vida em si. O sol é mau porque mata? Ou é bom porque dá vida? O sol é o sol e está para além dos nosso conceitos qualitativos. Tendo em conta isto, não façam o criador descer ao nível das nossas categorias. Aquilo a que chamamos o criador não é bom nem mau. Neste momento são 19:00 horas de um dia de Janeiro, já está escuro lá fora. A eletricidade é boa ou má? É boa? Coloquem um dedo na tomada. E agora? É boa ou má? Nem uma coisa nem outra, é somente energia. Podemos fazer coisas ótimas com ela e podemos fazer coisas horríveis.
É exatamente isso que fazemos com a vida. Podemos fazer dela uma coisa muito boa ou muito má, é nossa escolha. Quem faz dela uma coisa boa ou má? De quem é a responsabilidade? Se nos acharmos responsáveis, será que fazermos de um acontecimento algo terrível? E se dermos a responsabilidade de tal acontecimento, será que não somos muito mais implacáveis com o nosso julgamento do acontecido? Temos a tendência de nos desculpar quando passamos a responsabilidade para os outros. “sou assim porque o meu pai me educou assim” ou, “Não passei nos testes porque os professores não prestam” ou “agi assim porque ele fez assado”. Somos o que somos e fazemos o que fazemos porque somos como somos. E não assumimos responsabilidade pelo que fazemos.
Se assumirmos 100% da responsabilidade pelos nossos atos, iremos ter mais cuidado em fazer deles coisas maravilhosas. O risco de acharmos que a responsabilidade é dos outros é o de acabarmos por ser um acidente existencial.

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